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Livro Didático Digital Unidade 01 Glória Freitas Educação das Relações Étnico-Raciais Diretor Executivo DAVID LIRA STEPHEN BARROS Diretora Editorial ANDRÉA CÉSAR PEDROSA Projeto Gráfico MANUELA CÉSAR ARRUDA Autora GLÓRIA FREITAS Desenvolvedor CAIO BENTO GOMES DOS SANTOS GLÓRIA FREITAS Olá. Meu nome é Glória Freitas. Sou graduada em Pedagogia, com mestrado e doutorado na área de educação, com diversas experiências técnico-profissionais, na área de Educação, desde 1984, percorrendo inicialmente pela Educação Básica (na Educação Infantil e no Ensino Fundamental I) em Escolas, posteriormente lecionando em formações docentes em Organizações Governamentais e Não Governamentais (ONG’s e OSCIPs), e a partir de 1990, lecionando os fundamentos e metodologias de ensino, na Formação Docente Inicial e Pós-Graduação, no Ensino Superior, em Universidades Públicas e Particulares, em São Paulo, Paraná, Ceará, Rondônia e Maranhão. Sou apaixonada pelo que faço e adoro transmitir minha experiência de vida àqueles que estão iniciando em suas profissões. Por isso fui convidada pela Editora Telesapiens a integrar seu elenco de autores independentes. Estou muito feliz em poder ajudar você nesta fase de muito estudo e trabalho. Conte comigo! A AUTORA INTRODUÇÃO: para o início do desen- volvimento de uma nova competência; DEFINIÇÃO: houver necessidade de se apresentar um novo conceito; NOTA: quando forem necessários obser- vações ou comple- mentações para o seu conhecimento; IMPORTANTE: as observações es- critas tiveram que ser priorizadas para você; EXPLICANDO MELHOR: algo precisa ser melhor explicado ou detalhado; VOCÊ SABIA? curiosidades e inda- gações lúdicas sobre o tema em estudo, se forem necessárias; SAIBA MAIS: textos, referências bibliográficas e links para aprofundamento do seu conhecimento; REFLITA: se houver a neces- sidade de chamar a atenção sobre algo a ser refletido ou discutido sobre; ACESSE: se for preciso aces- sar um ou mais sites para fazer download, assistir vídeos, ler textos, ouvir podcast; RESUMINDO: quando for preciso se fazer um resumo acumulativo das últimas abordagens; ATIVIDADES: quando alguma ativi- dade de autoaprendi- zagem for aplicada; TESTANDO: quando o desen- volvimento de uma competência for concluído e questões forem explicadas; Olá. Meu nome é Manuela César de Arruda. Sou a responsável pelo projeto gráfico de seu material. Esses ícones irão aparecer em sua trilha de aprendizagem toda vez que: ICONOGRAFIA SUMÁRIO Explicando a diversidade cultural como característica da nossa formação humana e nacional.................................10 Explicando a Diversidade Cultural como Característica da nossa Formação Humana e Nacional: Conceito de Diversidade Cultural.............................................................................10 Explicando a Diversidade Cultural como Característica da nossa Formação Humana e Nacional e a presença dela na escola.................................................................................19 Reconhecendo o Discurso Pedagógico da Diversidade....25 Entendendo a introdução a Educação Étnico-Racial......37 Entendendo a introdução a Educação Étnico-Racial: Conceitos de Etnia e Raça................................................37 Entendendo a introdução a Educação Étnico-Racial na Realidade Brasileira ..........................................................39 Analisando os Fundamentos Legais para a Educação das Relações Étnico-Raciais...................................................42 Educação das Relações Étnico-Raciais 7 UNIDADE 01 Educação das Relações Étnico-Raciais8 Olá! Você estudará nesta unidade acerca da diversidade cultural como característica da nossa formação humana e nacional e o discurso pedagógico da diversidade, especialmente no ambiente escolar. Além disso, veremos sobre a educação a partir dos conceitos de etnia e raça, sobretudo na realidade brasileira. E ainda, analisaremos os fundamentos legais da educação das relações étnico-raciais. Preparado(a)? Ao longo desta unidade letiva você vai mergulhar neste universo! INTRODUÇÃO Educação das Relações Étnico-Raciais 9 Olá. Seja muito bem-vindo à Unidade 1. Nosso propósito é auxiliar você no desenvolvimento das seguintes objetivos de aprendizagem até o término desta etapa de estudos: • Entender a diversidade cultural como característica da nossa formação humana e nacional. • Reconhecer o discurso pedagógico da diversidade. • Compreender os conceitos básicos da educação étnico-racial • Analisar os fundamentos legais para a educação das relações étnico-raciais. Então? Preparado para uma viagem sem volta rumo ao conhecimento? Ao trabalho! OBJETIVOS Educação das Relações Étnico-Raciais10 Explicando a diversidade cultural como característica da nossa formação humana e nacional INTRODUÇÃO Ao término deste capítulo você será capaz de reconhecer a diversidade cultural como característica da nossa formação humana e nacional e o Discurso Pedagógico da Diversidade, o conceito de Diversidade Cultural e a presença da Diversidade Cultural na escola. Conseguirá explicar a Diversidade Cultural como Característica da nossa Formação Humana e Nacional. Será capaz de reconhecer o Discurso Pedagógico da Diversidade e entender a introdução a Educação Étnico-Racial. Por fim, será capaz de analisar os Fundamentos Legais para a Educação das Relações Étnico-Raciais. Isto será fundamental para o exercício de sua profissão. Isto será fundamental para a sua compreensão sobre a Diversidade Cultural como Característica da nossa Formação Humana e Nacional e o Discurso Pedagógico da Diversidade. E então? Motivado para desenvolver esta competência? Então vamos lá. Avante! Explicando a Diversidade Cultural como Característica da nossa Formação Humana e Nacional: Conceito de Diversidade Cultural Vamos começar explicando a Diversidade Cultural como Característica da nossa Formação Humana e Nacional requer a busca de conceito de Diversidade Cultural para conseguir melhor explicá-la. Você já conhece a expressão Diversidade Cultural? Em algum momento de sua formação estudantil já leu ou ouviu que a Diversidade Cultural seria algo relevante na nossa formação humana e na formação do Povo Brasileiro. Já ouviu alguém falando sobre a importância de os futuros Educação das Relações Étnico-Raciais 11 educadores reconhecerem as diversidades culturais que aparecem dentro de sala de aula? E ouviu professores falando sobre isso? Estas e outras indagações levam a uma questão inicial e que precisará ser respondida: afinal, qual é o significado de Diversidade Cultural? Diversidade pode significar variedade, diferença e multiplicidade. A diferença é qualidade do que é diferente; o que distingue uma coisa de outra, a falta de igualdade ou de semelhança (ABRAMOVICH, 2006, p12). Diversidade Cultural remete ao termo cultura. Cultura está relacionada a todo aquele complexo que inclui o conhecimento, a arte, as crenças, a lei, a moral, os costumes e todos os hábitos e aptidões adquiridos pelo ser humano não somente em família, como também por fazer parte de uma sociedade da qual é membro. Em 1871, cultura foi definida por Edward Burnett Tylor, na sua obra “A cultura primitiva”, é todo o complexo de conhecimentos, artes, moral, crenças, costumes, leis, costumes, capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem, como membro e dentro da sociedade (TYLOR, 1871). Entendemos que cultura não pode ser pensada de forma singular. O mais certo é dizer culturas, sempre no plural, lembrando que são mutantes, ou seja, mudam os valores, leis, práticas. São múltiplas as crenças e variadas as práticas. Como são diversificadas as instituições, dentre das diferentes formações sociais! Na realidade, é verdadeiro afirmar que dentro de uma sociedade, como a brasileira, porexemplo, caracterizada por ser, como qualquer outra, temporal e histórica, que aconteçam muitas transformações culturais (CHAUÍ, 1995). Claro que os futuros professores necessitarão de reflexões sobre a definição de cultura. Ou seriam definições? O que é inegável é que você pertence a uma cultura local, situada em uma determinada região do Brasil, e na região em que você vive existem distintos grupos sociais. Existe no Brasil minorias étnicas como os Povos Indígenas ou Povos Originários do Brasil. E existe uma cultura universal e que é patrimônio da humanidade. A cultura é um processo de humanização que imprime significados da vida social. Em sociedades plurais, como a sociedade brasileira, convivem diferentes matrizes culturais, diferentes idiomas culturais. Cada Educação das Relações Étnico-Raciais12 uma das culturas consigna uma visão de mundo, um quadro próprio de referência, seus próprios modos de pensar, de conhecer, de sentir, de fazer, de ser. Assim é comum que cada cultura desenvolva seus próprios sistemas de classificação, capaz de organizar o real, em conformidade com a sua própria lógica simbólica. Sendo assim as distintas culturas carregam suas dessemelhanças. Não são mesmo iguais, são diversas, são diferentes. Sendo assim e pensando na nossa realidade brasileira, a nossa diversidade cultural é resultante da sociedade plural que somos, do norte ao sul do imenso país. Figura 1: Sociedade Fonte: Freepik Como querer afirmar que somos sujeitos submetidos a uma cultura única e indivisível, chamada Cultura Nacional Brasileira? Como somos pertencentes a esta sociedade plural, decorrente disso surge esta vastidão de diversidades culturais, neste país chamado Brasil. O que não quer dizer que tudo é pacífico, integrado e ocorra em uma perfeita união entre tantas diversidades culturais. Algo impede uma maior comunicação entre nossas diversidades culturais. Educação das Relações Étnico-Raciais 13 Diante disso, o que dificulta e impede é o fato de estarmos imersos na ideia etnocêntrica de que algumas diversidades culturais são superiores ou melhores que outras. O que impede que sejamos capazes de reconhecer e respeitar as alteridades, aquilo que o outro é e representa diferente de si. E isso causa exclusões ou desrespeitos às outras diversidades culturais. Ou seja: Embora se intercomuniquem, essa comunicabilidade é regida pelo ordenamento social de natureza etnocêntrica que estrutura as relações de alteridade em nossa sociedade. Os mecanismos de integração, assimilação, disjunção e troca, na medida em que orientados etnocentricamente, configuram uma dinâmica assimétrica, excludente. (BANDEIRA, 2003, p. 143) Diversidade cultural pode ser conceituada como a representação, dentro de um sistema social, de pessoas afiliadas aos grupos distintamente diferentes, do ponto de vista de significado cultural (HANASHIRO; CARVALHO, 2005). Trazendo a luz a discussão das diversificadas expressões culturais, entre diferentes grupos, majoritários ou minoritários. Outra forma de conceituar Diversidade Cultural, levando em conta a ideia de Identidade Cultural (o que se relaciona com as certezas que temos de pertencimento a uma determinada cultura), é afirmar que se trata de um conjunto imenso de pessoas, que não partilham das mesmas identidades grupais, suas identidades enquanto pertencentes a grupos são distintas e bem delimitadas, mesmo que vivam no mesmo sistema social. O autor completa que, a diversidade cultural englobaria os mais diversos grupamentos humanos, percorrendo um caminho que passa por raça e por gênero, dando conta de abarcar a idade, história pessoal e corporativa, formação educacional, função e personalidade. Inclui, também, estilo de vida, preferência sexual, origem geográfica. Além disso, existem conceituações que diferenciam dimensões primárias, definidas como diferenças humanas imutáveis, tais como idade, etnia, gênero, raça, orientação sexual e habilidades físicas; e diferenças secundárias mutáveis: como formação educacional, localização geográfica e experiência de trabalho. Educação das Relações Étnico-Raciais14 Nas nossas ações sociais e culturais demonstramos que cada um de nós passa por um processo de produção da identidade e de diferença. E isso nos diferencia uns dos outros. E que precisam ser respeitados socialmente e no âmbito das instituições que frequentamos, principalmente na escola. Os que trabalham na escola devem ir além da tolerância, do respeito às diferenças, com relação a identidade e diferença de cada aluno, e isso começa por procurar entender como são produzidas as identidades culturais. A diversidade biológica pode ser um produto da natureza; o mesmo não se pode dizer da diversidade cultural. A diversidade cultural não é, nunca, um ponto de origem: ela é, em vez disso, o ponto final de um processo conduzido por operações de diferenciação. Uma política pedagógica e curricular da identidade e da diferença tem a obrigação de ir além das benevolentes declarações de boa vontade para com a diferença. Ela tem que colocar no seu centro uma teoria que permita não simplesmente reconhecer e celebrar a diferença e a identidade, mas questioná-las. (SILVA, 2000, p.100) É interessante começar a busca pelos significados da expressão Diversidade cultural, destacando o cuidado e diferenciando-a do senso comum, daquilo que costumamos ouvir e de opiniões pessoais. Diversidade Cultural não é fazer a defesa de que o nosso país, o Brasil, é pluriétnico (formado por muitas etnias diferentes, tanto autóctones (nativas) ou que vieram de outros continentes como o africano, europeu e asiático, e é pluricultural (diferentes culturas estão presentes na nossa realidade). Educação das Relações Étnico-Raciais 15 Figura 2: diversidade Fonte: Freepik Não devemos confundir diversidade cultural com uma política universalista de maneira a contemplar o todo, todas as formas culturais, todas as culturas, como se pudessem ser dialogadas, trocadas (ABRAMOVICH; RODRIGUES; CRUZ, 2011, p. 94). Passando uma impressão errônea que a diversidade cultural seria o campo esvaziado da diferença, ou seja, a diversidade cultural acaba por abolir diferenças profundas e intensas das pessoas e de seus grupos sociais de pertencimento. Isso não é verdade! A diversidade Cultural precisa ser diferenciada das explicações que aniquilem as desigualdades. Já que as desigualdades são reais e expressas em muitos modos, inclusive pelas manifestações culturais de distintos grupos sociais. Há desigualdades irreconciliáveis, seja de poder, seja das classes sociais, mas isto é obscurecido. Portanto, há muitas maneiras de esvaziar aquilo que são diferenças que é o contrário da construção identitária, pois cabe às diferenças: borrá-las. Em relação à diversidade supõe-se que a troca se realiza entre homens livres e iguais, o que sabemos não existe. (ABRAMOVICH; RODRIGUES; CRUZ, 2011, p. 94) Educação das Relações Étnico-Raciais16 O instigante tema diversidade cultural convoca a um posicionamento crítico e político, solicitando um novo olhar. E é mais ampliado que consiga abarcar os seus múltiplos recortes. Diante de uma realidade cultural e racialmente miscigenada, como é o caso da sociedade brasileira, essa tarefa torna-se ainda mais desafiadora. Ao falar em diversidade cultural, entram em cena partes consideráveis da população brasileira: negros, índios, mulheres, homossexuais e pessoas com deficiência, ganham visibilidades às lutas que estes grupos travaram, ao longo da história do Brasil, batalhas para garantir às suas diversidades e o clamor por políticas públicas que sejam capazes de atender os seus anseios. É interessante ressaltar que alguns sujeitos e grupos vão à luta para garantir suas visibilidades e em busca de políticas públicas afirmativas, como os Povos Indígenas Brasileiros eos Afrodescendentes. É perceptível que: [...] imigração, gênero, sexualidade, raça, etnia, religião e língua são os principais fatores que desencadearam um processo de mobilização e discussão sobre a diversidade, sendo que em vários contextos esses fatores estão inter-relacionados ou interseccionados. (ABRAMOVICH; RODRIGUES; CRUZ, 2011, p. 87) É possível entender diversidade cultural como sendo as diferenças construídas culturalmente, tornando-se, então, empiricamente observáveis; e ainda podemos entender como diversidade cultural as diferenças também construídas ao longo do processo histórico, nas relações sociais e nas relações de poder. Muitas vezes, os grupos humanos tornam o outro diferente para fazê-lo inimigo, para dominá-lo. Gomes (2003) fala que, tratar da diversidade cultural vai além de reconhecer o Outro, saber da existência dele com e na sua diferença. Constitui em pensar a relação entre o Eu e o Outro. Eis o encantamento em discutir sobre a diversidade. Ao considerarmos o outro, o diferente, não deixamos de focar a atenção sobre o nosso grupo, a nossa história, o nosso povo. Ou seja, falamos o tempo inteiro em semelhanças e diferenças. Educação das Relações Étnico-Raciais 17 Diversidade cultural vai além do ato de analisar um comportamento individual. E ainda exige uma discussão política, em razão da diversidade cultural tratar das relações estabelecidas entre os grupos humanos e por isso mesmo não está fora das relações de poder. Ela diz respeito aos padrões e aos valores que regulam essas relações (GOMES, 2003, p. 72). Ao relacionar a discussão da diversidade cultural inseridas nas atividades escolares é necessário impedir que ele seja pensado como um tema transversal. Muito mais do que um tema ou um conteúdo a ser incluído no currículo, a diversidade cultural é um componente do humano. Ela é constituinte da nossa formação humana. Somos sujeitos sociais, históricos, culturais e, por isso, mesmo diferentes (GOMES, 2003, p. 73). Quando a educação se volta para a garantia da diversidade cultural, realiza um direito das crianças. E, ainda, faz das diferenças um trunfo, explorá-las na sua riqueza, possibilitar a troca, proceder como grupo, entender que o acontecer humano é feito de avanços e limites. O que significa abrir conexões entre tantos elementos distintos da vasta cultura brasileira. Em uma busca intensa pelo novo e capaz de incentivar as vidas dos educandos. Devendo levar os educadores a buscar a adoção de práticas pedagógicas, sociais e políticas em que as diferenças sejam entendidas como parte de nossa vivência e não como algo exótico e nem como desvio ou desvantagem. A diversidade é uma mistura de pessoas, detentoras de identidades distintas, mas interagindo em um só sistema social. Nesses sistemas, coexistem grupos de maioria e de minoria. Os grupos de maioria são os grupos cujos membros historicamente obtiveram vantagens em termos de recursos econômicos e de poder em relação aos outros. Ao falar diversidade cultural aparece a necessidade de saber o que queremos dizer com a palavra Diversidade e com a palavra Cultura, e, posteriormente será possível chegar a um significado para a expressão Diversidade Cultural. A diversidade cultural é a riqueza da humanidade. Para cumprir sua tarefa humanista, a escola precisa mostrar aos alunos que existem outras culturas além da sua. Por isso, a escola tem que ser local, como ponto de partida, mas Educação das Relações Étnico-Raciais18 tem que ser internacional e intercultural, como ponto de chegada. Autonomia da escola não significa isolamento, fechamento numa cultura particular. Escola autônoma significa escola curiosa, ousada, buscando dialogar com todas as culturas e concepções de mundo. Pluralismo não significa ecletismo, um conjunto amorfo de retalhos culturais. Significa sobretudo diálogo com todas as culturas, a partir de uma cultura que se abre as demais. (GADOTTI, 1992, p. 23) SAIBA MAIS Quer se aprofundar neste tema? Recomendamos o acesso à seguinte fonte de consulta e aprofundamento: Artigo: Educação para a Diversidade: uma prática a ser construída na Educação Básica (Silva, 2007), Acessível pelo link: https://bit.ly/315QTmA Figura 3: Cerimônia de encerramento da nona edição dos Jogos dos Povos Indígenas (Olinda PE) Fonte: Wikimedia Commons https://bit.ly/315QTmA Educação das Relações Étnico-Raciais 19 Explicando a Diversidade Cultural como Característica da nossa Formação Humana e Nacional e a presença dela na escola Você já é capaz de explicar a diversidade cultural como característica da nossa formação humana e nacional e conceituar diversidade cultural? Agora, você vai será desafiado a conseguir explicar a diversidade cultural como característica da nossa formação humana e nacional, e refletir sobre a presença dela na escola. As reflexões e publicações sobre temas como diversidade cultural, na sua relação com as minorias, e impôs como um tema proeminente, em países da América do Norte – Canadá e Estados Unidos. Desde a década de 60, os movimentos políticos a favor da integração racial levaram à promulgação de leis visando à igualdade de oportunidades de educação e ao emprego para todos (FLEURY, 2000, p.19). Zelosos dos seus importantes papéis, os educadores deverão agir para integrar as diversidades culturais que coexistam dentro da escola e da sala de aula, instaurando um respeito as alteridades, aos outros e aos alunos. Levando em consideração os discursos simbólicos que consigam justificar as relações de alteridade, o formato e a maneira como esses discursos se reproduzem ou de como enfatizam determinados fragmentos temáticos, oportunos em dada situação, momento ou contexto particular, sempre transformando a diferença em desigualdade (BANDEIRA, 2003, p. 143) Estar em uma escola, aprendendo ou lecionando, representa momentos significativos para ter contato e adquirir elementos importantes da cultura universal. Bem como é uma oportunidade de aprender a lidar com as diferenças locais, regionais, de cada grupo social, raciais, de gênero e convivendo com as minorias étnicas. A diversidade étnico-cultural nos mostra que os sujeitos sociais, sendo históricos, são, também, culturais. Essa constatação indica que é necessário repensar, rompendo Educação das Relações Étnico-Raciais20 com as práticas seletivas, fragmentadas, corporativistas, sexistas e racistas. (GOMES e GONÇALVES e SILVA, 2006, p. 25) Dentro desta perspectiva, cabe ao educador, ao deparar-se com as diversas manifestações culturais populares ou culturas da cidadania, agir respeitando-as e dando-lhes vozes, dentro da escola. Cultura popular seria, na perspectiva de Paulo Freire, tomada de consciência da realidade nacional, para produzir transformações e criar formas de relações sociais e políticas; significa consciência de direitos, possibilidade de criar novos direitos e capacidade de defendê-los contra o autoritarismo, a violência (simbólica ou não) e o arbítrio. Interessará, certamente, a cada futuro educador, usar seus tempos na universidade, para preparar e consolidar, um modo adequado e consistente para o exercício do magistério, focada na realidade de que os alunos trazem múltiplas expressões de distintas culturas, implicando a necessidade de a educação ser multicultural, pluralista (não são homogêneos mesmos os alunos como não somos homogêneos os brasileiros). E, as futuras ações didáticas deverão ser focadas no respeito à cultura de cada aluno, portanto, democrática. Cada educador deverá estar disposto a instaurar a equidade e o respeito mútuo, superando preconceitos de toda espécie, principalmente os preconceitos de raça e de pobreza. O que significa que o professor deverá ter respeito aos direitos dos alunos e que ninguém poderá deixar de matriculado e de permanecer na escolapor qualquer tipo de preconceitos. Neste sentido os estudantes universitários que estão almejando os exercícios do magistério deverão aprender sobre a importância da renovação dos conteúdos culturais escolares, fazendo dialogar com a educação regular (aquela que acontece nas salas de aula) com os conteúdos aprendidos no âmbito da educação não-formal, firmando compromissos com uma educação para a equidade. Educação das Relações Étnico-Raciais 21 Figura 4: Educador Fonte: Freepik Isso acontece quando se leva a sério a diferença cultural. O respeito aos direitos humanos é fator para a democracia e, justamente, democracia e direitos humanos não se constituíram, a não ser muito recentemente e com raras exceções, em conteúdos nodais da escola brasileira. É preciso experimentar uma educação multicultural, focada no que é universal e ao mesmo tempo é específico de um povo. Toda escola deve abrir os horizontes de seus alunos para a compreensão de outras culturas, de outras linguagens e modos de pensar, num mundo cada vez mais próximo, procurando construir uma sociedade pluralista e interdependente. As crianças chegam às escolas e carregam suas condições sociais próprias e relacionadas aos grupos sociais que pertencem. É necessário perceber que elas não são apenas portadores de especialidades biopsicológicas. Os educadores precisam entender que a infância é uma construção social. Infância é distinta de imaturidade biológica, não é natural nem universal e aparece como componente estrutural de muitas sociedades (ROCHA; COSTA, 2014, p.85). Educação das Relações Étnico-Raciais22 Por isso, é importante verificar as relações sociais em que as crianças estão inseridas, ao mesmo tempo em que devem ser vistas como participantes do mundo social e produtores de culturas diversas. Devem ser vistas como ativas na construção e determinação das suas próprias vidas, das vidas dos que cercam e das sociedades onde vivem. Crianças não são sujeitos passivos das estruturas. As crianças interagem com muitos subgrupos etários e não ficam estáticos nas suas capacidades de ação, de expressar sentimentos e pensamentos, de movimentar-se com autonomia. É importante lembrar que as crianças são constituídas como seres sociais, e assim sendo disseminam-se pelos diversos modos de estratificação social: a classe social, a etnia a que pertencem, a raça, o gênero, a região do globo onde vivem. Os diferentes espaços estruturais diferenciam profundamente as crianças. (SARMENTO, 2005, p. 370) Vamos a um exemplo prático, ao comparar um menino europeu, na faixa etária entre 6 e 12 anos, pertencente a etnia dominante europeia e de raça branca, com família submetida as condições econômicas favoráveis e possuindo maiores possibilidades de viver com saúde, que tem acesso e permanência escolar garantidos, com seus direitos de brincar, ser alimentado suficientemente, portar boas roupas, ter brinquedos, viver em uma boa casa e ter horas de lazer favorecidas, em comparação com uma menina da América do Sul, na Índia ou África, vinda das classes populares e mais empobrecidas sul-americana, indiana ou africana, é imprescindível entender que a diversidade social e cultural distingue este menino europeu destas meninas que vivem em condições econômicas precárias, em seus distintos continentes. Isso significa que são bastante menores, neste caso, as possibilidades de estudar, brincar e aceder a bens de consumo, e muito maiores as possibilidades de estar doente e de ter sobre os ombros as responsabilidades e os encargos domésticos. As crianças demandam tratamentos que levem em conta a diversidade que as tornam os sujeitos que são. Não é justo que o educador, na sala de aula, as veja parcialmente. É imperativo que os professores façam distinções efetivas, conceituais, semânticas (processos de referenciação e significação próprias das crianças sobre Educação das Relações Étnico-Raciais 23 a infância e suas diversidades culturais, sintáticas (relativas as regras de articulação entre os elementos simbólicos) e morfológicas (referentes a especificação das formas que adotam os elementos característicos das culturas da infância). Desta forma, cabe ao professor entender que a criança enquanto um sujeito concreto que integra essa categoria geracional e que, na sua existência, para além da pertença a um grupo etário próprio, é sempre um ator social que pertence a uma classe social, a um gênero etc. Assim, cada criança deverá ser tratada como um sujeito que vive mergulhado à sua própria diversidade cultural, e que poderá até coincidir em alguns elementos com as culturas de seus professores, mas difere em muitos pontos e precisará ser respeitada no seu direito a sua específica diversidade cultural. Junto com seus pares, com as crianças que compartilham o seu cotidiano, a escola deverá não coibir a apropriação, reinvenção e a reprodução que elas produzem juntas, colaborando para conseguir lidar com experiências contraproducentes, ao mesmo tempo em que se estabelecem fronteiras de inclusão e exclusão (de gênero, de subgrupos etários, de status) que estão fortemente implicados nos processos de identificação social. Caberá aos que planejam as rotinas educativas: [...] construir novos espaços educativos que reinventem a escola pública como a casa das crianças, reencontrando a sua vocação primordial, isto é, o lugar onde as crianças se constituem, pela ação cultural, em seres ditados do direito de participação cidadã no espaço coletivo. (SARMENTO, 2002, p. 16) É necessário levar em conta a criança enquanto portadora de diversidade cultural, e a responsabilidade do educador como quem sustenta, com bastante respeito, lugares de convivências criativas. Deve-se deixá-las livres como atores sociais, nas diversidades culturais e nas alteridades delas. Cada criança deve ser reconhecida como Outro e reconhecer as demais naquilo que elas carregam como Outro também, com os adultos. As condições culturais e sociais são heterogêneas, mas incidem perante uma condição infantil comum: a de uma geração desprovida de condições autônomas de sobrevivência e de crescimento e que está sob o controlo da geração adulta. Educação das Relações Étnico-Raciais24 Os conteúdos e as formas presentes nas culturas infantis são interdependentes das culturas das sociedades onde vivem, sendo afetadas pelas mais diversas relações de classe, de gênero e de proveniência étnica, que impedem definitivamente a fixação num sistema coerente único dos modos de significação e ação infantil. As crianças precisam ser reconhecidas como produtores de cultura própria à sua geração. E são estas culturas da infância que exprimem as contradições que visualizam na sociedade em que habitam. A escola e a família são espaços que oferecem interações diversas e o contato com culturas dirigidas pelos adultos (pais e professores) e culturas construídas nesses encontros entre as crianças. Os adultos costumam oferecer produtos de suas culturas às crianças. Passam às novas gerações suas decisões arbitrárias ao selecionarem ou recusarem alguns valores e saberes. Isso acontece com os pais, com os educadores e é perceptível no conjunto de dispositivos culturais produzidos para as crianças, com uma orientação do mercado, configuradora da indústria cultural para a infância (literatura infantil, jogos e brinquedos, cinema, bandas-desenhadas, jogos vídeo e informativos, sites e outros dispositivos da Internet, serviços variados – de férias, de tempos livres, de comemoração de aniversário, de festas, etc.). (SARMENTO, 2002, p. 5) SAIBA MAIS Quer se aprofundar neste tema? Recomendamos o acesso à seguinte fonte de consulta e aprofundamento: Artigo: Multiculturalismo e educação: em defesa da diversidade cultural (Silva, 2007), Acessível pelo link: https://bit.ly/2S1HQPt E então? Gostou do que lhe mostramos?Aprendeu mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo até aqui, vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido, até este momento, a explicar a Diversidade Cultural como Característica da nossa Formação Humana e Nacional, o conceito de Diversidade Cultural e a presença da Diversidade Cultural na escola. https://bit.ly/2S1HQPt Educação das Relações Étnico-Raciais 25 Reconhecendo o Discurso Pedagógico da Diversidade Figura 5: Apoio a diversidade Fonte: Freepik Reconhecendo o discurso pedagógico da diversidade é necessário para você entender as responsabilidades e adesões da escola e dos educadores sobre a importância de promover a diversidade nas atividades educativas. Você percorrerá pela história do discurso pedagógico hegemônico, desde a idade moderna, e posteriormente entenderá sua diferenciação com o discurso pedagógico da diversidade. O Discurso Pedagógico revela aquilo acontece nas relações entre os professores e os alunos, dos detalhes mais insignificantes aos mais essenciais. Trata nas formas como a escola pretende modificar as mentes, os modos de agir e de pensar das novas gerações a favor da Diversidade. É inegável que as nossas indissociáveis e interdependentes identidades e diferenças, são geradas a partir da nossa condição de sujeitos ou asujeitados à linguagem, no âmbito de um específico dentro discurso. Isso deve inspirar os educadores a examinar, minuciosamente, Educação das Relações Étnico-Raciais26 seus modos de produção, onde e quando foram produzidas, através do discurso. A maioria das escolas costumam operar a favor da normalização e este movimento, no interior das salas de aulas parece estar produzindo mais expurgo da norma do que identidades encaixadas na ordem. Quer dizer, há cada vez mais ‘estranhos’ do que ‘normais’. Na medida em que os professores tentam domar as identidades dos seus alunos mais proliferam as diferenças. Indagando se não existiria uma possibilidade pedagógica para lidar com a diferença sem excluí-la, Costa (2008) defende que seria indispensável desessencializar as identidades e historicizá-las, mostrar e problematizar as identidades em sua face construída, produzida nas injunções políticas do poder no interior das sociedades e das culturas. O pensamento de Michel Foucault vai ajudar você a entender sobre os discursos e sobre as práticas atreladas a eles. Este autor francês entendia que os discursos são poderosos, agem, vigiam e controlam os sujeitos. É bem difícil escapar de tanta vigilância e das recorrentes punições nas instituições, dos rótulos que vão sendo pregados na testa dos que não respeitam as normas, a partir da saída da Idade Média, na Idade moderna. São os discursos eles mesmos que exercem seu próprio controle; procedimentos que funcionam, sobretudo, a título de princípios de classificação, de ordenação, de distribuição, como se tratasse desta vez, de submeter outra dimensão do discurso: a do acontecimento e do acaso. (FOUCAULT, 2002 p.21) Historicamente, a partir da modernidade, a escola passa a agir de um modo diferenciado das práticas medievais. Foucault bem mais tarde estudou este momento histórico (século XX). Estudou os colégios da Era Moderna, seus disciplinamentos, vigilâncias e punições, respaldadas pelo discurso hegemônico moderno, com seus objetivos de controlar e moldar a subjetivação dos sujeitos na modernidade, focando na formação do aluno, filho dos burgueses e cristãos. Tal discurso carregava seus mecanismos de poder, controle e disciplinamento, que eram vistos como inquestionáveis e posteriormente naturalizados como regras infalíveis em nome da racionalidade, para educar as novas gerações. Educação das Relações Étnico-Raciais 27 Interessou a Foucault estudar sobre a história das construções sociais impostas sobre os alunos, bem como os saberes e poderes que os discursos pedagógicos veiculam. Suas pesquisas sobre este importante momento da história da educação revelaram o aluno, na modernidade, asujeitado ao discurso pedagógico e seus métodos, mostrando seu poder dentro dos colégios. E tal poder é conhecido como poder disciplinar: O poder disciplinar é com efeito um poder que, em vez de se apropriar e de retirar, tem como função maior ‘adestrar’; ou sem dúvida adestrar para retirar e se apropriar ainda mais e melhor. (...) A disciplina ‘fabrica’ indivíduos; ela é a técnica específica de um poder que toma os indivíduos ao mesmo tempo como objetos e como instrumentos de seu exercício. Não é um poder triunfante que, a partir de seu próprio excesso, pode-se fiar em seu superpoderio; é um poder modesto, desconfiado, que funciona a modo de uma economia calculada, mas permanente (FOUCAULT, 1981, p.153) Figura 6: Focault Fonte: Wikimedia Coommons Educação das Relações Étnico-Raciais28 Foucault (1981), contribuiu para o entendimento de que foram elaborados, a partir da modernidade, métodos capazes de realizar o controle meticuloso das operações do corpo, sujeitando-o nas suas forças, tornando-o dócil e útil. Estes métodos operados para conseguir tal asujeitamento é denominado ‘disciplinas’. Tais processos disciplinares ou disciplinamentos levariam tempos para serem operados nos conventos, oficinas e exércitos e foram expandindo seus domínios, passando a ser fórmulas gerais de dominação dos sujeitos, no decorrer XVII e XVIII. Diferenciados dos tempos e dos modos da escravidão, na antiguidade e nos tempos medievais, a modernidade traz novidades, pois não fundamentam numa relação de apropriação dos corpos; é até a elegância da disciplina dispensar essa relação custosa e violenta obtendo efeitos de utilidade pelo menos igualmente grandes. O que fabricaria a disciplina? Foucault responde que fabrica indivíduos, a disciplina é uma técnica própria e relacionada a um poder, que coisifica os sujeitos, transformando-os em objetos e instrumentos de seu funcionamento. Não age pelo excesso e confiante no seu imenso poder, representa um poder módico, acanhado, funcionando a modo de uma economia calculada, mas permanente. Humildes modalidades, procedimentos menores, se os comprarmos aos rituais majestosos da soberania ou aos grandes aparelhos do Estado. Vieram das descobertas das ciências modernas, como da Medicina e alguns eficazes modelos de normatização, como por exemplo, as ortopedizações empregadas para endireitar o corpo, transportado para disciplinar as mentes dos alunos, nos colégios. Avançou a pedagogização do conhecimento e o disciplinamento tantos nos corpos como nas mentes dos alunos. Não parando nunca mais e permanece atual na estrutura escolar e nos discursos pedagógicos, normatizando os sujeitos, professores ou alunos. Normatizou-se primeiro a produção dos canhões e dos fuzis, em meados do século XVIII, a fim de assegurar a utilização por qualquer soldado de qualquer oficina, etc. depois de ter normatizado os canhões, a França normatizou seus professores. As primeiras Escolas Normais, destinadas a dar a todos os professores o mesmo Educação das Relações Étnico-Raciais 29 tipo de formação e, por conseguinte, o mesmo nível de qualificação, apareceram em torno de 1775, antes de sua institucionalização em 1790 ou 1791. A França normatizou seus canhões e seus professores, a Alemanha normatizou seus médicos. (FOUCAULT, 1982, p. 83) Foucault (2002) comenta que em todas as sociedades ocorrem produção de discurso, que é, simultaneamente, controlada, selecionada, organizada e redistribuída por certo número de procedimentos que têm por função conjurar seus poderes e perigos, dominar seu acontecimento aleatório, esquivar sua pesada e temível materialidade. Um dos procedimentos é a exclusão, outro deles é a interdição. Em alguns casos, em lugares e instâncias mais sombrias das sociedades, o discurso nem é neutro e tão pouco transparente, a políticae a sexualidade são alguns destes lugares. Os educadores deveriam saber e refletir sobre suas práticas, as inter-relações contidas nelas, os modos como são operados os objetivos de homogeneizar as diversidades, as diferenças, as identidades, contendo os diferentes, os irreverentes, os criativos, os que possuem modos distintos dos seus próprios, das suas famílias e da sua classe social. E aprender com eles! Foucault aponta que ainda que o discurso seja aparentemente bem pouca coisa, as interdições que o atingem revelam logo, rapidamente, sua ligação com o desejo e o poder. Nisso não há nada espantoso, visto que o discurso – como a psicanálise nos mostra – não é simplesmente aquilo que manifesta (ou oculta) o desejo; e visto que – isto a história não cessa de nos ensinar – o discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas aquilo por que, pelo que se luta, o poder do qual nós queremos apoderar. (FOUCAULT, 2002, p. 10) Portanto, nada aniquilará nos educandos, os seus desejos de serem ouvidos em suas subjetividades, nos seus anseios e nas suas manifestações culturais que lhes foram fazendo sentidos nas suas jornadas pelas suas existências. Assim, tradicionalmente, o espaço Educação das Relações Étnico-Raciais30 escolar é o lugar da disputa entre o discurso pedagógico hegemônico (dentro da cabeça dos professores desde a modernidade aos dias atuais) e os interesses, desejos e ideias das novas gerações. É necessário, na contemporaneidade tentar fazer um esforço para ouvir as outras vozes silenciadas dos alunos, procedentes de suas quebradas, de seus guetos, de suas comunidades, das suas casas e de suas famílias. Invadindo a escola com estes outros cantos, outras danças, dissonantes, mas reais. Figura 7: Crianças e Dança dos Caboclinhos no Carnaval do Brasil Fonte: Wikimedia Coommons Foucault reflete que para os gregos (século VI) o discurso era pronunciado pelo sujeito que tinha direito a ele, em conformidade com algum ritual próprio à época. O discurso tinha a capacidade de profetizar o futuro, com a adesão dos indivíduos. Depois tudo mudou, na passagem da Antiguidade Clássica para o início da Idade Média. A verdade se deslocou do ato ritualizado, eficaz e justo, de enunciação, para o próprio enunciado: para seu sentido, sua forma, seu objeto, sua relação e suas referência. (FOUCAULT, 2002, p. 13) Educação das Relações Étnico-Raciais 31 Já na chegada à modernidade (lá pelos séculos XVI e XVII), Foucault aponta que apareceu uma vontade de saber que, antecipando-se a seus conteúdos atuais, desenhava planos de objetos possíveis, observáveis, mensuráveis, classificáveis, uma vontade de saber que impunha ao sujeito cognoscente (e de certa forma antes de qualquer experiência) certa posição, certo olhar e certa função (ver, em vez de ler, verificar, em vez de comentar); uma vontade de saber que prescrevia (e de certo modo mais geral do que qualquer instrumento determinado) o nível técnico do qual deveriam investir-se os conhecimentos para serem verificáveis e úteis. (FOUCAULT, 2002, p. 16/17) E a pedagogia estará presente com suas práticas, agindo em nome deste sistema moderno e excludente. Serve para reforçar e conduzir este projeto de verdade da modernidade, a serviço da realização dos procedimentos de controle e de delimitação próprios ao discurso pedagógico hegemônico. Isso desfavorece, até os dias atuais, que outros discursos não hegemônicos possam chegar à escola e democraticamente oferecer suas contribuições, aproximando os alunos que se sentem desmotivados por discursos outros, distanciados de suas vidas e seus anseios. A escola precisa pensar nisso! Rever seus métodos, renovar suas intenções e oxigenar velhas práticas. E Foucault esclarece o modo de procedimento de um discurso, oposta ao lugar do aluno como sujeito capaz de fazer comentários sobre o que leu, estando longe de um projeto de leitor autônomo e capaz de falar com propriedade e com liberdade sobre temas propostos na sala de aula. A organização das disciplinas se opõe tanto ao princípio do comentário como ao do autor. Ao do autor, visto que uma disciplina se define por um domínio de objetos, um conjunto de métodos, um corpus de proposições verdadeiras, um jogo de regras e de definições, de técnicas e de instrumentos: tudo isso constitui uma espécie de sistema anônimo à disposição de quem quer ou pode-se servir dele, sem que seu sentido ou sua validade estejam ligados a quem sucedeu ser seu inventor (FOUCAULT, 2002, p. 30) Educação das Relações Étnico-Raciais32 A criação de um autor, suas palavras próprias são apropriadas por um determinado discurso que coloca a produção dele no anonimato. E este princípio da disciplina que desvaloriza a autoria dos que produziram os livros ou textos, desvalorizando até mesmo o desejo dos alunos de serem autores, criadores de novos textos, este princípio da disciplina se opõe também ao do comentário: em uma disciplina, diferentemente do comentário, o que é suposto no ponto de partida, não é um sentido que precisa ser redescoberto, nem uma identidade que deve ser repetida; é aquilo que é requerido para a construção de novos enunciados. (FOUCAULT, 2002, p. 30) Assim, nem é solicitado ao aluno que aprenda a comentar a própria realidade, o que leu e até o que escreveu. As leituras que possam fazer do mundo não são necessárias. Só interessa mesmo é que o discurso hegemônico exercido e seus modos de agir possam ser apreendidos. Foucault fala em biopoder, uma etapa nova e posterior ao século XVIII. A diferença é que o biopoder se diferencia do poder disciplinar e técnica de adestrar o homem-corpo, punindo-o e vigiando constantemente. Parece para agir no campo do homem-espécie. O biopoder vai operar como uma novidade, uma nova tecnologia de poder, distinta do poder disciplinar, mas não o descartará, fará uma fusão com ela. Sendo assim preservada e operando seus resultados nas instituições modernas ocidentais até hoje. Foucault esclarece que a disciplina tenta reger a multiplicidade dos homens na medida em que essa multiplicidade pode e deve redundar em corpos individuais que devem ser vigiados, treinados, utilizados, eventualmente punidos. E, depois, a nova tecnologia que se instala se dirige à multiplicidade dos homens, não na medida em que eles se resumem em corpos, mas na medida em que ela forma, ao contrário, uma massa global, afetada por processos de conjunto que são próprios da vida, que são processos como o nascimento, a morte, a produção, a doença etc. (FOUCAULT, 1999, p. 291) Como vencer as determinações deixadas pelo discurso pedagógico hegemônico, nascido na modernidade, com todas as suas Educação das Relações Étnico-Raciais 33 consequências nas mais simples ou complexas atividades escolares, para incorporar a diversidade cultural, a multiculturalidade, as marcas presentes nas nossas manifestações culturais e trazer um novo e progressista discurso pedagógico aberto às diferenças, capaz de conduzir ações afirmativas às minorias desprivilegiadas, no decorrer de mais de 500 anos de exclusão? O que travariam a passagem desses discursos pedagógicos hegemônicos e tradicionais para os inovadores Discursos Pedagógicos da Diversidade? As mudanças têm sido, então, quase sempre, a burocratização do outro, sua inclusão curricular e, assim, a sua banalização, seu único dia no calendário, seu folclore, seu detalhado exotismo. Muitos olhares para as diferenças das crianças ficaram do lado de fora do foco e das discussões dos educadores. E permanecem sem querer ver. Se, em algum momento da nossa pergunta sobre educação, tínhamos nos esquecidos do outro, agora detestamos sua lembrança, maldizemos a hora de sua existência e da sua experiência, corremos desesperados a aumentar o número de alunos e de cadeiras nas aulas, mudamosas capas dos livros que já publicamos há muito tempo, re- uniformizamos o outro sob a sombra de novas terminologias. Novas terminologias sem sujeitos. (SKLIAR, 2003, p.40) A escola brasileira repete um discurso de inspiração dos princípios que movimentaram o pensamento sobre a educação e a escola republicana francesa, de que deve ser única e igual para todos, e desta forma, oculta e mantém uma ética de indiferença em relação às diferenças. Ou seja, há uma indiferença ao outro como fundamento da escola. O que levaria a uma visão de homogeneização diante de sujeitos heterogêneos (diferentes). Impondo, dentro da escola um saber, de uma racionalidade, de uma estética, de um sujeito epistêmico único, legitimado como hegemônico, como parâmetro único de medida, de conhecimento, de aprendizagem e de formação. São impostos parâmetros universais e abolidas as diferenças, que tornam desiguais em iguais, atingindo e trazendo para todos a mesma medida e avaliação, resultando em classificar o ‘outro’ como inferior, Educação das Relações Étnico-Raciais34 incivilizado, fracassado, repetente, bárbaro etc. Um Discurso Pedagógico da Diversidade impõe diferenças e modos novos de ver o diferente, propõe-se a tolerância a alguns coletivos: as classes populares, os negros, os homossexuais, mas ainda os vemos como aqueles que não sabem, inferiores. E que necessitarão da adesão e empenho de cada educador, diante de uma realidade que aponta justamente para o contrário, para a exclusão e a indiferença com as diferenças. Na busca de outro discurso pedagógico é necessário superar a marca pesada que ficou, na escolha brasileira a favor da escola tradicional, impedindo novas metodologias, concepções progressistas, organizações disciplinares inovadoras e inspiradas em concepções epistemológicas progressistas, criando possibilidades de ampla autonomia e participação dos educandos. Fazendo a aposta por uma escola como comunidade participativa, refletindo sobre o fato de a escola defender a participação – autonomia, mas comporta-se de modo autoritário e com contradições: instituição igualitária que reproduz desigualdade social; instituição respeitadora das diferenças e tolerante, mas que provoca atitudes discriminatórias; instituição que proclama a aprendizagem crítica e criativa, mas usa métodos memorísticos e meios verbais; instituição democrática, mas que usa hábitos autoritários que limitam a participação. (Martins, 2006, p. 79) Na busca de uma nova pedagogia, já não mais voltada aos discursos hegemônicos, surgidos desde a Era Moderna, construtores das escolas tradicionais, ultrapassando-os e apoiando-se no Discurso Pedagógico da Diversidade é preciso estar aberto para construir novas mentalidades, para além de falar apenas por falar. O discurso das diversidades permite entender como podemos compreender as distintas diferenças, desde a análise da realidade sociopolítica e sociocultural (multiculturalidade, interculturalidade). Isso significa estar aberto às diversidades, alteridades e diferenças, em fazer encontros interculturais (entre culturas diferentes), abrindo Educação das Relações Étnico-Raciais 35 espaços de expressão multiculturais (entre muitas culturas em diálogo). Querendo constituir bons encontros com as várias diversidades culturais trazidas pelos educandos, ouvi-los falar sobre estes mundos outros, em suas expressões diversas daquelas mais familiares aos educadores e que impliquem em novas aprendizagens para os educadores. O Discurso Pedagógico da Diversidade destaca a concepção humanista da igualdade, do valor e da afirmação das diferenças na diversidade cultural, de género/sexo, de capacidades e da relação entre diferença-semelhança, pluralidade e identidade. Isso demandará o acolhimento dos direitos à diferença, o conhecimento das histórias e das culturas dos diferentes agrupamentos sociais, que são os formadores, as matrizes do Povo Brasileiro, no antes e no depois da colonização portuguesa, a abertura às estéticas oriundas das diversidades culturais brasileiras. É uma grande mudança de concepção e que estará apoiada em novas tendências educativas. Estão subjacentes a estas apreciações várias tendências educativas, fruto da diversidade dos discursos na sua análise às realidades concretas educativas (MARTINS, 2006, p. 84). Martins defende que na diversidade de discursos pedagógicos, os indicativos à necessidade de uma educação especial para determinados coletivos ou grupos com deficiências ou necessidades de aceder ao currículo, as diferenças linguísticas, as metodologias adequadas a cada contexto etc. O que pode ser apontado para o futuro da educação, em uma perspectiva alimentada por um discurso pedagógico da diversidade é que poderá caminhar para ‘muitos e diversos espaços’, enquadrando-se no sentido de que cada vez mais o indivíduo realiza a sua aprendizagem ou aprendizagens em espaços diversificados. O Discurso Pedagógico da Diversidade poderá oferecer novas perspectivas. As respostas educativas (enfoques) dessas pedagogias inovadoras emergentes falam menos de igualdade e mais de liberdade, de qualidade e competências para o desempenho profissional (MARTINS, 2006, p. 89). Dando vozes aos que costumam ser obrigados a não argumentar com as suas próprias diversidades culturais ou seus modos de expressão, trazendo-lhes novos capitais culturais, novos conhecimentos, acesso amplo as produções culturais da humanidade. Educação das Relações Étnico-Raciais36 Os discursos são a favor do acesso à cultura e à educação das classes mais desfavorecidas, da democratização escolar, do desencadear de novos métodos e estratégias e conteúdo, da compreensão crítica da realidade, da educação social e cívica (cidadania), investigação-ação e resolução de problemas, de novos instrumentos metodológicos, novos reportórios de técnicas, do desenvolvimento de materiais de ensino específicos (‘Humanities Project’ de Stenhouse), de novos modelos de ensino e de formação de professores, novos espaços de aprendizagem, da educação integral, racional e científica formadora da conduta moral, das cidades educativas e comunidades de vida, da construção do conhecimento e do desenvolvimento da inteligência e criatividade, de novos tipos de aprendizagem, de experiências na comunidade, etc. (MARTINS, 2006, p. 89) O discurso pedagógico da diversidade com seus olhares, linguagens e abordagens, diversidades de ideias, temáticas, perspectivas, enfoques e tendências devem abrir espaço para novas e melhores práticas educativas. SAIBA MAIS Quer se aprofundar neste tema? Recomendamos o acesso à seguinte fonte de consulta e aprofundamento: Artigo: A Importância e Influência do Setor de Compras nas Organizações (Silva, 2007), Acessível pelo link: https://bit.ly/37E4yE0 E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido que para reconhecer o Discurso Pedagógico da Diversidade é necessário entender as responsabilidades e adesões da escola e dos educadores sobre a importância de promover a diversidade, nas atividades educativas. Você percorreu pela história do Discurso Pedagógico Hegemônico, desde a Idade Moderna, e posteriormente foi capaz de entender sua diferenciação com o Discurso Pedagógico da Diversidade. https://bit.ly/37E4yE0 Educação das Relações Étnico-Raciais 37 Entendendo a introdução a Educação Étnico-Racial Você será capaz de entender, de um modo introdutório, a Educação Étnico-Racial. Isso facilitará a sua futura inserção em sala de aula, desenvolvendo suas atividades educadoras para as diversidades das crianças. Entendendo a introdução a Educação Étnico-Racial: Conceitos de Etnia e Raça Entendendo a introdução a Educação Étnico-Racial, buscandoconceitos de Etnia e Raça é importante para diferenciar e perceber a dessemelhança entre os conceitos de Etnia e Raça. O fato é que a preocupação com uma Educação Étnico-Racial traz o desafio de pensar em propostas curriculares que não neguem as nossas verdades étnico-raciais, bastante fáceis de serem conhecidas, através de saberes históricos, sociais, antropológicos, bastante reveladores das nossas realidades Étnico-Raciais brasileiras. Isso significa ter elementos suficientes para realizar um consistente combate ao racismo e as discriminações originalmente étnico-raciais. É necessário que a escola e os educadores estejam dispostos a conhecer ideias que fortaleçam, dentro dela e nestes professores, sendo veiculadas aos alunos, para que os conhecimentos novos operem, a favor do desenvolvimento de valores, atitudes e posturas capazes de educar cidadãos que tenham orgulho de seus pertencimentos étnico-raciais. Sejam os descendentes de africanos, povos indígenas, descendentes de europeus, de asiáticos – para interagirem na construção de uma nação democrática, em que todos, igualmente, tenham seus direitos garantidos (BRASIL, 2004, p.02), bem como suas identidades valorizadas. O termo Raça perpassa por uma conotação política, usado em demasia no Brasil, nas relações sociais brasileiras, com objetivos de informar como determinadas características físicas, como cor de pele, tipo de cabelo, entre outras, influenciam, interferem e até mesmo determinam o destino e o lugar social dos sujeitos no interior da Educação das Relações Étnico-Raciais38 sociedade brasileira. E, posteriormente, as populações negras brasileiras, no âmbito de suas organizações e lutas político-sociais, foram capazes de ressignificar o termo Raça, passando a utilizá-lo com um sentido político e de valorização do legado deixado pelos africanos. E o termo Étnico, que aparece na expressão étnico-racial, é usada para delimitar as verdadeiras, reais e tensas relações relacionadas as nossas diferenças, na cor da pele e traços fisionômicos o são também devido à raiz cultural plantada na ancestralidade africana, que difere em visão de mundo, valores e princípios das de origem indígena, europeia e asiática. O termo étnico, então, está associado e é imprescindível para delimitar que um dado sujeito pode até a mesma cor da pele que seu colega de sala de aula, terem os dois o mesmo tipo de cabelo e semelhantes traços sociais e culturais que os diferenciem, sendo estes dois educandos pertencentes as etnias diferentes. Grupos étnicos são agrupamentos de pessoas, portadoras de determinadas características marcantes de suas culturas, carregando suas diferenças ancestrais, linguísticas, de valores, de hábitos alimentares, costumes e manifestações culturais. E já Raça representa uma construção social usada para caracterizar os diferentes sujeitos, montada em particularidades relacionadas a cor da pele ou marcas físicas. O termo raça é sociológico e não biológico. E podemos afirmar que todos pertencemos a raça humana. Tal espécie humana teria surgido por volta de 350 mil anos atrás, no leste do continente africano. Sendo assim, somos ancestralmente todos africanos. Educação das Relações Étnico-Raciais 39 Entendendo a introdução a Educação Étnico-Racial na Realidade Brasileira Figura 8: Brasil Fonte: Freepik Entendendo a introdução a Educação Étnico-Racial na Realidade Brasileira será possível conhecer mais sobre nossas diversidades Étnico- Raciais e culturais. Em um país fortemente marcado pela diversidade, desde os primórdios, nos tempos em que os Povos Originários chamavam o nosso Pais e a região da América do Sul, pelo nome de Pindorama, que significa terra livre dos males, segundo os habitantes originários, os povos tupis e guaranis. E, ainda, a região da América era chamada de Abya Yala, em língua do Povo Indígena Kuna significando a ‘Terra Viva’ ou ‘Terra em florescimento’. Posteriormente, já nos tempos da colonização portuguesa, entre os primeiros estrangeiros que se tornaram moradores do Brasil e vieram de Portugal, constavam pessoas, como Jerônimo de Albuquerque (conhecido como o Adão Pernambucano), cunhado do administrador da Capitânia de Pernambuco, sendo que Jerônimo e a sua irmã traziam as marcas das suas ancestralidades rramita-muculmana, muçulmana- Educação das Relações Étnico-Raciais40 semita, negra pré-saaraniana e aqui no Brasil chegaram na condição de representante do rei de Portugal. Encontrando aqui no Brasil a filha do Cacique Arcoverde Tabajara (do tronco linguístico Tupy), com quem teve vários filhos que foram registrados e fizeram história, como também seus inúmeros descendentes. (LIMA, 2013) Mas, nem tudo foi semelhante e pacífico ao encontro inaugural deste casal por volta do ano 1534. O Brasil contava com milhões de habitantes indígenas que foram mortos, por não aceitar a condição de escravização. O Antropólogo brasileiro e Ex-Ministro da Educação, Darcy Ribeiro, considera que no processo de Formação do Povo Brasileiro, destacam-se conflitos intensos entre índios, negros e brancos. Pode‐se afirmar, mesmo, que vivemos praticamente em estado de guerra latente, que, por vezes, e com frequência, se torna cruento, sangrento. Entendendo a introdução a Educação Étnico-Racial, com o objetivo de exercer o magistério, em um pais fortemente marcado por uma história intensa de dificuldades entre seus grupos Étnico-Raciais, na relação difícil de contatos entre diferentes etnias (Inter étnicos) é necessário desvelar os preconceitos, revelar as impropriedades das falsas narrativas e entender as verdades profundas e que não podem ser caladas, dentro das escolas: Conflitos Inter étnicos existiram desde sempre, opondo as tribos indígenas umas às outras. Mas isto se dava sem maiores consequências, porque nenhuma delas tinha possibilidade de impor sua hegemonia às demais. A situação muda completamente quando entra nesse conflito um novo tipo de contendor, de caráter irreconciliável, que é o dominador europeu e os novos grupos humanos que ele vai aglutinando, avassalando e configurando como uma macro etnia expansionista (RIBEIRO, 1995, p.168). Posteriormente, chegaram africanos na condição indigna de escravizados em grande número, proibidos de falar a própria língua, confessar a própria religião e obrigado a trabalhar em condições absolutamente terríveis, martirizados ou supliciados perversamente. Diante disso, as consequências da colonização portuguesa e católica sobre as populações indígenas, africanas e afro-brasileiras Educação das Relações Étnico-Raciais 41 foram cruéis e todas as Políticas Públicas Afirmativas, de reparação, oferecidas aos povos afro-brasileiros e indígenas, são mínimas diante da monstruosa ação governamental, seja nos tempos coloniais, imperiais ou republicanos sobre estes povos e seus descendentes. Figura 9: Congada, Dança Brasileira nos Tempos Colônias Fonte: Wikimedia Commons SAIBA MAIS Quer se aprofundar neste tema? Recomendamos o acesso à seguinte fonte de consulta e aprofundamento: Artigo: Conceitos de gênero, etnia e raça: reflexões sobre a diversidade cultural na educação escolar (Silva, 2007), Acessível pelo link: https://bit.ly/2S261xb E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido a entender, de um modo introdutório, a Educação Étnico-Racial. Isso facilitará a sua futura inserção em sala de aula, desenvolvendo suas atividades educadoras. Entendendo, agora, tanto os conceitos de Raça e Etnia, bem como aspectos importantes sobre a Educação Étnico-Racial, na Realidade Brasileira https://bit.ly/2S261xb Educação das Relações Étnico-Raciais42 Analisando os Fundamentos Legais para a Educação das Relações Étnico-Raciais INTRODUÇÃOAo analisar os Fundamentos Legais para a Educação das Relações Étnico-Raciais, você terá parâmetros para cumprir e propor Projetos Políticos Pedagógicos, currículos, metodologias e práticas educativas. As lutas populares pela redemocratização, conduzidas pelo povo brasileiro (indígenas, povo negro organizado em movimentos, povos do campo e lideranças comunitárias), foram intensas antes e depois da promulgação da Constituição de 1988. Eram esperadas, no conjunto de tantas reivindicações, que ocorreriam reais mudanças na educação das relações étnico-raciais brasileira. O fruto das lutas está na redação e explicitação de que a Educação é um direito de todos, no artigo 205, da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Definindo-a como direito de todos e dever do Estado e da família, a ser incentivada e promovida com colaboração de toda a sociedade, dirigindo o desenvolvimento pleno da pessoa, preparo para o exercer plenamente a cidadania e a qualificação para o trabalho. Neste momento histórico quem seriam as crianças aleijadas do seu acesso e permanência na escola? Quem seriam os reprovados ano após ano? Eram aqueles que evadiam da escola por ter recebido um acento entre os que fracassaram nela, muitas vezes sendo o 1.º membro de famílias pobres e negras a frequentar uma escola. Tratados como inaptos, imputados por diagnósticos que os desabilitavam para a aprendizagem, para aprender a ler, escrever e os empurravam ou para uma sala especial ou para fora da escola, com eles iam todos os sonhos de muitas gerações de seus antecedentes. A Constituição Federal, a constituição da redemocratização e cidadã, lhes dá os direitos constitucionais de acesso e permanência, Educação das Relações Étnico-Raciais 43 com muito o que ser feito, para mudar a realidade dentro das escolas, garantindo-lhes o direito à educação, e com a concretização deste direito fundamental, ter respaldados a sua identidade cultural (e de seus familiares), a promoção, a tolerância e o respeito com relação às suas diferenças étnico-raciais (BRASIL, 1988). O Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8,069/1990) foi promulgado 1990, e estava relacionado às diretrizes internacionais constituídas pela Convenção dos Direitos da Criança, da ONU, em 1989. Representou grande mobilização de pais, professores e comunidades. No artigo 5º é garantido o direito as crianças ou adolescentes brasileiras de não serem atingidos por nenhuma forma de discriminação, exploração, negligência, crueldade, exploração, violência e opressão, com punições a qualquer atentado, tanto por ação como por omissão, dos seus direitos fundamentais. Outro elemento significativo para a garantia da Educação Étnico-Racial, no artigo 16 desta importante e valorosa lei, respaldando o direito à liberdade, participando da vida familiar e comunitária, sem nenhum tipo de discriminação, entre elas configuram as discriminações étnico-raciais (BRASL, 1990). Um pouco mais adiante, na nossa história, os parâmetros curriculares nacionais/PCN’s (BRASIL,1997) são diretrizes curriculares, organizadas pelo Governo Federal para orientar as práticas educativas de todas as disciplinas curriculares, da rede pública, onde frequentam os estudantes mais empobrecidos, e podia ser adotada, sem obrigatoriedade, pela rede privada de ensino brasileira. A temática da diversidade étnico-racial apareceu tornou- se como um tema transversal curricular, ponto de ser contemplado em qualquer disciplina. Logo de início o documento afirma que a educação deve ser voltada para a cidadania, os vários termos como Ética, Meio Ambiente, Saúde, Orientação Sexual, Trabalho e Consumo e Pluralidade Cultural são tratados como temas a serem incorporados, seguindo uma conexão entre a realidade social dos estudantes e saberes teóricos, aos campos gerais do currículo. (ABRAMOVICH; RODRIGUES; CRUZ, 2011, p.90) Educação das Relações Étnico-Raciais44 Já o Parecer 017/2001 de 2001, do Conselho Nacional de Educação, vai afirmar a conscientização do direito de constituição de identidade própria e o dever do reconhecimento da identidade do outro, ambos engajados como o direito à igualdade e ao respeito às diferenças, afirmando oportunidades diferenciadas (o que quer dizer o direito a equidade), tantas quantas forem necessárias, com vistas à busca da igualdade. O princípio da equidade reconhece a diferença e a necessidade de haver condições diferenciadas para o processo educacional. (BRASIL, 200, p.11) Diante das históricas e complexas disparidades e discriminações que prejudicavam a escolarização da população negra brasileira, o CNE – Conselho Nacional de Educação, com seu papel mediador entre o Estado, os sistemas de ensino do Brasil resolve ouvir os antigos e inaudíveis apelos e mobilizações do movimento negro brasileiro para que a escola passasse a ser palco e contemplasse a diversidade social e étnico-racial afro-brasileira. Na atualidade, o preconceito e a discriminação baseada em critérios étnico-raciais estão entre os principais motivadores da evasão escolar das pessoas negras. A escola como uma instituição que reproduz as estruturas da sociedade também reproduz o racismo, como ideologia e como prática de relações sociais que inviabiliza e imobiliza as pessoas, inferiorizando-as e desqualificando-as em função da sua raça ou cor. Buscando contribuir com a desconstrução desse processo, em 2003 é promulgada a Lei Federal nº 10.639 que institui a obrigatoriedade do ensino da história e cultura afro-brasileira e africana (AGUIAR, 2009, p. 12) Isso foi materializado com as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana (BRASIL, 2004). O Conselho Nacional de Educação (CNE) interpretou as determinações da Lei 10.639/ 2003(BRASIL, 2003) que introduziu, na Lei 9394/1996 das Diretrizes e Bases da Educação Nacional (BRASIL, 1996), a obrigatoriedade do ensino de história e cultura Afro-Brasileira e Africana. Educação das Relações Étnico-Raciais 45 As políticas inclusivas são aquelas voltadas para a redução das desigualdades sociais, promovendo a universalização de direitos civis, políticos e sociais, estabelecendo a igualdade de fato. As políticas públicas includentes não são formuladas como um benefício para um grupo em detrimento de outro, mas sim para combater as discriminações que impedem o acesso aos direitos sociais, em igualdade de condições, por parte de grupos considerados em vulnerabilidade, por terem uma história marcada pela exclusão e por desigualdades de condições (NUNES, 2014, p. 11) Tais DCNs para a Educação das Relações Étnicos-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana vai declarar que: Reconhecimento implica justiça e iguais direitos sociais, civis, culturais e econômicos, bem como valorização da diversidade daquilo que distingue os negros dos outros grupos que compõem a população brasileira. (BRASIL, 2003, p. 5). Exigindo mudanças significativas que perpassam os discursos, raciocínios, lógicas, gestos, posturas, modo de tratar as pessoas negras. (BRASIL, 2003, p. 5) Determinando o conhecimento da história e cultura afro-brasileira e africana, para produzir o efeito de desconstruir o mito da democracia racial na sociedade brasileira; mito este que difunde crença de que, se os negros não atingem os mesmos patamares que os não negros, é por falta de competência ou interesse, desconsiderando as desigualdades seculares que a estrutura social hierárquica cria com prejuízos para o negro. (BRASIL, 2003, p. 5) Estas novas determinações colocaram, no núcleo de novos posicionamentos, ordenamentos e recomendações, a educação das relações étnico-raciais. Deste modo, conformou uma nova política curricular que passou a atingir no âmago do convívio, trocas e confrontos em que têm se educado osbrasileiros de diferentes origens étnico- raciais, particularmente descendentes de africanos e de europeus, com nítidas desvantagens para os primeiros. Educação das Relações Étnico-Raciais46 Figura 10:Pintura da Festa de Nossa Senhora do Rosário, Padroeira dos negros no Brasil, feita pelo artista alemão Rugendas, em visita ao Brasil, no Século XIX Fonte: Wikimedia Commons Os Povos Indígenas, os povos autóctones ou originários do Brasil, foram as lutas por seus direitos, nos tempos da redemocratização e que culminaram com as lutas por uma nova constituição. Esta imensa dívida social do Estado Brasileiro com seus povos originários começa a ser equacionado com a Constituição de 1988. (BRASIL, 1988) É importante ressaltar que a constituição permite ao cidadão, seus direitos à educação bilíngue (já que são falantes da língua materna, pertencente ao seu povo e da Língua Portuguesa), ao acesso aos conhecimentos universais, sem que isso despreze tais línguas e seus milenares saberes tradicionais. Com relação a isso, o artigo 210 assegurou o direito de empregar suas línguas maternas, bem como seus processos de aprendizagem. Assim, a escola passa a ser, por força deste preceito constitucional, uma ferramenta de valorização e sistematização de seus mais diversos saberes e múltiplas práticas tradicionais, e também o espaço de Educação das Relações Étnico-Raciais 47 permanência, de acesso e da obtenção de conhecimentos universais, caminhando junto com a obrigatória valorização dos conhecimentos étnicos, já que existem diversos povos indígenas no Brasil, falantes de dessemelhantes línguas e que possuem culturas distintas. Além da Constituição de 1988, anos depois para aqueles que já esperavam por quase 500 anos, a Lei de Diretrizes de Bases da educação Nacional/LBB 9394/96 (BRASIL, 1996) passou a reconhecer legalmente as diferenças e peculiaridades do diversos Povos Indígenas habitantes do vasto território nacional. No seu artigo 78, é garantindo-lhes, aos povos indígenas todos o direito, e apoios que se fizerem necessários, a recuperar suas memórias históricas, a reafirmar suas identidades étnicas e a obter a valorização de suas línguas maternas e suas específicas ciências, com a garantia do acesso às informações, dos conhecimentos técnicos e científicos da nossa sociedade nacional, além e do que for relativo as demais sociedades indígenas e não-índias. (BRASIL, 1988) Já Plano Nacional de Educação/PNE de 2001 (BRASIL, 2001) instituiu objetivos e metas especificas para o desenvolvimento da educação escolar indígena diferenciada, que deverá ser intercultural, bilíngue (em língua materna indígena e na Língua Português do Brasil), com garantia de qualidade. Isso levou a criação de Cursos de Formação Superior para professores indígenas e que funcionavam nas férias das universidades públicas brasileiras. Assim, muitos professores indígenas formam e atuam nas suas aldeias espalhadas pelo Brasil. Uma vitória inigualável para conseguir os objetivos firmados nestes marcos legais tão significativos, focados na diversidade dos povos indígenas e nas suas mais diversas tradições culturais específicas, caminhando na concretude da especificidade que é o ensino para crianças indígenas , com seus direitos a diferença, a interculturalidade (conviver entre culturas diferenças) e da manutenção de suas diversidades linguística, pois longe estão os tempos coloniais em que eram proibidos de falar a língua materna e obrigados a falar a mesma língua do rei de Portugal, além das suas culturas e histórias tão diversificadas. Educação das Relações Étnico-Raciais48 Existe um longo caminho ainda para ser realizado entre indígenas e não indígenas na busca de um diálogo respeitoso e tolerante com relação aos povos indígenas e suas diferenças. Os não indígenas precisarão aprender a valorizar e preservar todas as diversas culturas indígenas, reconhecendo os povos indígenas, seus direitos ao acesso e permanência a todos os níveis de escolaridade, respeitando as suas histórias e culturas. Como já citado, na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional/LDB (9.394/96) (BRASIL, 1966), foi adicionada a Lei 10.639/2003 (BRASIL,2003), promovendo o ensino da História e Cultura Afro-brasileira. Essa alteração foi regulamentada com a aprovação do Parecer nº. 03/2004 do Conselho Nacional de Educação, que estabeleceu Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Etnicorraciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana, e da Resolução, nº. 1, de 17 de junho de 2004. O Parecer CNE/ CP nº. 03, de 10 de março de 2004, indicou conteúdos a serem incluídos e também as necessárias modificações nos currículos escolares, enquanto a Resolução CNE/CP nº.1 detalhou os direitos e as obrigações dos entes federados frente à implementação da Lei 10.639/03. (NUNES, 2014, p. 10) Anos depois, foi necessário ampliar tal dispositivo legal, contemplando os nossos povos originários, os indígenas brasileiros, com a promulgação da Lei 11.645/2008. (BRASIL, 2008) Estas duas modificações provocadas na LDB trouxeram as lutas conjuntas dos povos afro-brasileiros e indígenas em prol do combate mútuo ao racismo, que sofrem os negros e os indígenas desde os tempos da colonização brasileira, já passados 120 anos da proclamação da República e do fim da escravidão. São os ecos das lutas contra a discriminação as diversidades étnica-culturais de indígenas e negros, configurando também em uma luta contra os desrespeitos aos direitos à educação dos duas importantes matrizes da formação do povo brasileiro (indígena e afro-brasileira). Educação das Relações Étnico-Raciais 49 A LEI Nº 11.645, data de 10 de março de 2008, modificou o artigo 26 da LDB (BRASIL, 1996), dando o seguinte novo texto: Nos estabelecimentos de ensino fundamental e de ensino médio, públicos e privados, torna-se obrigatório o estudo da história e cultura afro- brasileira e indígena. (BRASIL, 2008) Esclarecendo que o conteúdo programático terá que incluir diversos aspectos da história e da cultura que caracterizam a formação da população brasileira, a partir desses dois grupos étnicos, tais como o estudo da história da África e dos africanos, a luta dos negros e dos povos indígenas no Brasil, a cultura negra e indígena brasileira e o negro e o índio na formação da sociedade nacional, resgatando as suas contribuições nas áreas social, econômica e política, pertinentes à história do Brasil. (BRASIL, 2008, p.01) Fica esclarecido nesta modificação ao texto original da LDB (BRASIL, 1996) que os conteúdos alusivos à história e cultura afro- brasileira e dos povos indígenas brasileiros serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de educação artística e de literatura e história brasileiras. (BRASIL, 2008, p.01) As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Escolar Indígena, publicada em junho de 2012, garante, como princípios da especificidade da Educação Escolar Indígena, os esforços no bilinguismo e multilinguíssimo, da organização comunitária e da interculturalidade fundamentem os projetos educativos das comunidades indígenas, valorizando suas línguas e conhecimentos tradicionais. (BRASIL, 2012a, p. 3) Isso implica em trazer para a escola algo já existente, desde bem antes da colonização portuguesa, a coexistência de mais de uma língua falada por crianças e adultos, os modos distintos de organização comunitária dos diferentes povos indígenas e os conhecimentos tradicionais que são veiculados pela oralidade. Levando em conta as dimensões biopsicossociais, culturais, cosmológicas, afetivas, cognitivas, linguísticas. Diante disso, exigiu-se a formação de professores indígenas, para assegurar um ensino e pedagogias harmônicos com as formas próprias destes Educação das Relações Étnico-Raciais50 povos produzirem conhecimentos.Bem como a relevância da pesquisa e da elaboração de materiais didáticos adequados para trazer a qualidade sociocultural, que permita aos povos indígenas, nos termos preconizados pela LDB, a recuperação de suas memórias históricas; a reafirmação de suas identidades étnicas; a valorização de suas línguas e ciências. As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Escolar Quilombola, publicada em novembro de 2012 (BRASIL, 2012b) tocam na Educação Escolar Quilombola, a ser oferecida as crianças, adolescentes e jovens quilombolas, remanescentes de antigos grupamentos de populações africanas e afro-brasileiras que se organizaram, ao longo da cruel história da escravidão brasileira em comunidades rurais para resistir e viver nas suas lutas pela liberdade. Tais diretrizes demandam a organização do ensino, a ser ministrado nas escolas, baseando-se na memória coletiva e línguas reminiscentes, bem como em marcos civilizatórios, práticas culturais, acervos e repertórios orais, festejos, usos, tradições e demais elementos que conformam o patrimônio cultural das comunidades quilombolas de todo o país. (BRASIL, 2012, p. 26) Tais diretrizes para a escola quilombola e para os povos quilombolas espalhados pelo país, requerem o ensino, currículo e o projeto político-pedagógico em constante diálogos com a realidade dos povos quilombolas. Estas, demandam que a Educação Escolar Quilombola contemple ao longo das suas etapas e modalidades: a cultura, as tradições, a oralidade, a memória, a ancestralidade, o mundo do trabalho, o etno desenvolvimento, a estética, as lutas pela terra e pelo território. Isso significa trazer para o cotidiano das crianças quilombolas, na escola, a presença constante de inúmeros saberes que estão presentes e agem na vida social de todos os povos quilombolas brasileiros. Já a Base Nacional Comum Curricular/BNCC (BRASIL, 2018), trata da necessidade de pensar os planejamentos curriculares focando na equidade e na reversão da histórica situação de exclusão histórica de grupos como os povos indígenas originários e as populações das comunidades remanescentes de quilombos e demais afrodescendentes – e as pessoas que não puderam estudar ou completar sua escolaridade na idade própria. (BRASIL, 2018, p. 15/16) Educação das Relações Étnico-Raciais 51 Na nossa BNCC (BRASIL, 2018), a Educação Escolar Indígena, para acontecer nas escolas localizadas dentro das Terras Indígenas, deverá garantir competências específicas baseadas nos princípios da coletividade, reciprocidade, integralidade, espiritualidade e alteridade indígena, a serem desenvolvidas a partir de suas culturas tradicionais reconhecidas nos currículos dos sistemas de ensino e propostas pedagógicas. Isso significa assegurar uma educação intercultural, considerando nas ações educativas o respeito e a presença, em sala de aula, das cosmologias (visões de mundo) dos vários povos indígenas brasileiros, das suas lógicas, dos seus valores e seus princípios pedagógicos. A BNCC (BRASIL, 2018) recomenda que as propostas pedagógicas considerem a existência de atividades educativas que envolvam a abordagem de temas contemporâneos que afetam a vida humana em escala local, regional e global, preferencialmente de forma transversal e integradora. (BRASIL, 2018, p. 17). Configuram entre estes temas, entre outros, a educação em direitos humanos, amparada no Decreto nº 7.037/2009, Parecer CNE/CP nº 8/2012 e Resolução CNE/ CP nº 1/201221). E a educação das relações étnico-raciais e ensino de história e cultura afro-brasileira, africana e indígena (Leis nº 10.639/2003 e 11.645/2008, Parecer CNE/CP nº 3/2004 e Resolução CNE/CP nº 1/200422). (BRASIL, 2018, p. 19/20) Todos os Fundamentos Legais para a Educação das Relações Étnico-Raciais construídos no Brasil, desde os tempos da redemocratização, são frutos de lutas intensas do povo brasileiro, negro e indígena. Devem e podem estar presentes aos currículos de governos e escolas. Precisarão constar nos cotidianos das atividades escolares. E assim sendo, demandam a formação de educadores conscientes de tais legislações, que as respeitem e as cumpram, na exatidão em que elas formam escritas. Movidos por sentimentos de respeito e adesão históricos e culturais e de cumplicidade coma tais histórias e as culturas dos Povos Indígenas e afro-brasileiros do nosso país. Educação das Relações Étnico-Raciais52 SAIBA MAIS Quer se aprofundar neste tema? Recomendamos o acesso à seguinte fonte de consulta e aprofundamento: Artigo: Ensinar, Aprender e relações étnico-raciais no Brasil (Silva, 2007), acessível pelo link Acessível pelo link: https://bit.ly/2Oc2zyN E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Na unidade 1 sobre diversidade cultural como característica da nossa formação humana e nacional e o discurso pedagógico da diversidade. Você deve ter aprendido a explicar a diversidade cultural como característica da nossa formação humana e nacional, bem como o conceito de diversidade cultural e a presença da diversidade cultural na escola. Você deve ter aprendido, ainda, a reconhecer o discurso pedagógico da diversidade. Em seguida, você conseguiu entender, de uma forma introdutória, a educação étnico-racial, os conceitos de etnia e raça e por último a educação étnico-racial na realidade brasileira. Por último, você já é capaz de analisar os fundamentos legais para a educação das relações étnico-raciais. https://bit.ly/2Oc2zyN Educação das Relações Étnico-Raciais 53 BIBLIOGRAFIA ABRAMOVICH, Anete; RODRIGUES, Tatiane Cosentino; CRUZ, Ana Cristina Juvenal da. A diferença e a diversidade na educação. Revista Contemporânea. Dossiê Relações Raciais e Ação Afirmativa. 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